segunda-feira, 11 de maio de 2009

Querer




Querer
(Pablo Neruda)

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009


Soneto do Amor Total
(Vinícius de Moraes)

Amo-te tanto meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.


Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.


E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Mudan-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudanças,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se a cada dia,
Outra mudança faz de maior espanto
Que já não se muda como "soía".

(Luís Vaz de Camões)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009


Confeitor
(Bastos Tigre)

A carne é fraca. Embora fraca,
D'Alma é o maior dos inimigos.
Por cinco pontos nos ataca,
do mal expõe-nos aos perigos.

Ouvido, tato, olfato, olhar
E gosto, a todos os momentos,
Tentam-me e fazem-me pecar
Por obras vis e pensamentos.

De tais pecados me confesso
Depois do exame de consciência.
E ao padre-Cura, humilde peço
No tribunal da penitência.

Que absolvição total me dá
Do mal que fiz contra a virtude,
Como dos mil pecados que
não cometi porque não pude.

Quem ora soubesse
onde o amor nasce,
que o semeasse.

D'Amor e seus danos
me fiz lavrador:
semeava amor
e colhia enganos.
Não vi em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.

Vi terra florida
de lindos abrolhos:
lindos para os olhos,
duros para a vida.
mas a rês perdida
que tal erva pace
em forte (má) hora nasce.

Com quanto perdi,
trabalhava em vão;
se semeei grão,
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.

(Luís de Camões)